Poucos sabem, mas o Civic dos anos 90 tinha um irmão maior.
Diz a lenda, que se o Civic 1.6 tinha 160 cavalos, naturalmente o Prelude era 2.0 e tinha duzentos. Bom, quase isso, na Versão VTEC, era um 2.2 de 192 cavalos. Exatamente o mesmo número do K20 de 2007, mas ele tinha uma proposta diferente, era um coupé puro, baixo, largo, esportivo mas confortável, com câmbio manual e excelente estabilidade. Feito do zero, sem derivações, na época de ouro da Honda, foi top 10 da Car and Driver durante toda sua produção, o garoto propaganda era o Senna e o carro favorito do antigo editor da Car Magazine, LJK Setright, que considerava o Prelude “simplesmente o melhor carro para se dirigir”.
Pra avaliar qualquer carro, é preciso entender o propósito dele, e a proposta do GT é sempre difícil de explicar com as leis da física, números pouco importam, é mais a experiência de dirigir. Sendo bem extremo, um carro esporte não significa que deve ser legal de dirigir, ele só precisa ser rápido e comunicativo, mas isso sacrifica muito o conforto. Um GT é esportivo sem sacrificar o conforto, é o equilíbrio disso tudo, e saber equalizar esses dois pontos é o segredo. Lembrando que o McLaren F1 é um GT, com bagageiro decente e som Kenwood de alta fidelidade, ser foda é consequência.
O Prelude é um carro pensado desde o início como um projeto único, não é derivado de um sedan, o que geralmente acontece e são bons carros, mas muita coisa sutil acontece quando o projeto já nasce assim. Pontos de solda, suspensão sob medida, posição de dirigir, design interior e exterior ganham personalidade quando falamos de carros criados com um pouco mais de liberdade.
Primeiro vamos falar do elefante na sala, a tração dianteira. Existem vários fatores que fazem um carro ser bom de dirigir, todos eles são filtros entre nós e a estrada, e todos eles têm seu preço: comportamento do motor, relação de câmbio, tipo de suspensão, resposta ao volante, potência, distribuição de peso, agilidade, ronco, câmbio manual, feedback, Noise Vibration and Harshness (NVH)… E muitos dizem que qualquer carrinho de mão movido pelas rodas de trás é melhor que um Integra, e não é bem assim.
A tração dianteira é a escolha da maioria dos carros que vemos no dia a dia por 3 motivos:
1º Custo – os principais componentes do carro são armazenados e um lugar só, a arquitetura do carro é mais fácil de ser pensada e reproduzida. Sem isso, seria impossível ter carros acessíveis.
2º Espaço – nos projetos atuais, o motor é na transversal com um transeixo, que é a caixa de câmbio e o diferencial em uma única peça, sem a necessidade de um eixo cardã atravessando o carro inteiro para girar as rodas de trás, o que compromete o espaço central do interior e no porta malas, além de geralmente elevar a posição de dirigir. Lembre que grandes V8 americanos como Cadillacs eram tração dianteira por espaço e conforto.
3º Segurança – é mais fácil manter uma coisa em linha reta quando ela é puxada, e não empurrada. Para pessoas comuns, sem sentido aranha, a tração dianteira é muito mais fácil de controlar em situações de emergência – freia, corrige e acelera.
A grande desvantagem da tração dianteira, além de não poder fazer drift, é que as rodas dianteiras ficam sobrecarregadas, tendo a função de tracionar e apontar ao mesmo tempo. Esse é o motivo que não temos carros de tração dianteira com mais de 300 cv, eles têm um limite de tração ao tentar fazer curvas.
E a vantagem da tração traseira, que se traduz em conforto e é o principal motivo dos carros premium optarem pela tração traseira, é o melhor tempo de resposta de aceleração quando o carro é empurrado, enfatizado pela transferência do peso para a traseira quando aceleramos, que ajuda a tracionar.
Enfim, tudo se trata de escolha, saber equilibrar os prós e os contras e ainda assim conseguir o objetivo. Aqui a Honda aproveitou as vantagens e diminuiu as desvantagens com o entreeixos mais curto, um carro bem largo, principalmente na dianteira, suspensão duplo A nos dois eixos, um motor com maior curso, com um diferencial mais curto, de relação final de 4,27:1, que prioriza o torque e dá a melhor sensação de resposta. Coisas que são reforçadas com o 4WS e o VTEC.
Desmistificando essa parte da tração, vamos seguir para os motivos que fazem o Prelude ser um carro tão bom de dirigir e ponto final, e não “um carro muito bom de dirigir, apesar de ser tração dianteira”.
Os Motores dos Preludes de 4ª geração:
Prelude
S F22A1 – 135 cv ; 19,6 kgfm
Diâmetro/curso - 85 mm × 95 mm
Taxa de compressão - 8,8:1
Prelude
Si H23A1 – 160 cv ; 21,6 kgfm
Diâmetro/curso - 87 mm × 95 mm
Taxa de compressão - 9,8:1
Prelude
VTEC H22A1 – 192 cv ; 21,8 kgfm
Diâmetro/curso - 87 mm × 90.7 mm
Taxa de compressão - 10,1:1

O H22 é complexo, mas muito robusto, inclusive usado como base dos motores Honda de corrida na F3, e até hoje usado por preparadoras fora do Brasil. Único problema conhecido é o eixo balanceiro, que gera falha de lubrificação, mas pode ser eliminado sem mais problemas, existe até um kit da KS para isso.
Ainda considerado um motor quadrado, usa o diâmetro/curso de 87 mm × 90.7 mm, que com a ajuda de um coletor de admissão variável, permite um bom torque em baixa. Além disso, o H22 tem duplo comando no cabeçote, um fluxo já muito bem trabalhado, CAI de fábrica, puxando o ar do para-lama direito, e camisas para reduzir o desgaste feitas de FRM (fiber reinforced metal), que é uma matriz de metais de baixa densidade, como alumínio, titânio e magnésio, reforçado com fibras de óxido de alumínio e carboneto de silício, que são cerâmicas. Quando ouvimos que uma peça é diamantada, é dessas fibras que são feitas.
É um ótimo motor, dá pra fazer muita coisa com ele, mas fora do Brasil, o problema é que por ser um projeto mais antigo, é muito pesado e complexo para os padrões atuais. A família H é antecessora da família K, não por serem parecidos, mas por sucessão de projetos.
A maioria dos Ludes no Brasil é com motor H23: 4 cilindros em linha, 2.3L DOHC, câmbio manual de 5 marchas.

Seu Honda não tem VTEC, como assim???!
...na época do lançamento, em setembro de 1991, os japoneses evitavam colocar suas melhores versões para exportação, daí surgiu o Japanese Domestic Market, ou Mercado Doméstico do Japão, Existente até hoje com Toyotas V12. Além disso, o VTEC era uma tecnologia nova, recém lançada no Integra, adaptada de última hora no NSX, e finalmente no H22, com isso, de 1991 a 1992, os Ludes para exportação foram equipados com o H23: motor já considerado subquadrado, com maior curso (95mm), de 2.3L sem VTEC, mas com todo o resto, inclusive o bloco igual, gerando 160 cv e 21,6 kgfm de torque, 0 a 100 em 7,7s. Not bad, mas o H22 é o H23 com superpoderes, e quem não gostaria de ter superpoderes?
Acontece que mesmo com um motor de segundo escalão, o Prelude com H23 fora do Japão ficou no top 10 de várias revistas especializadas, então quando o H22 VTEC ganhou mundo em 93, o H23 foi mantido como topo de linha em alguns mercados por causa do imposto sobre potência, e ainda assim o Lude chegava aqui entre 50 e 75 mil dólares dependendo da época e modelo. Transformar o H23 em H22? Precisa trazer peças que são difíceis de encontrar, mesmo lá fora, mas acredito que com paciência, tempo e uns 25 mil sobrando seja possível sim.
O
F22 é o projeto do qual o H22 se originou, competente e confiável,
e largamente usado nos Accords da mesma época, por isso, mais fácil
achar peças. Principal diferença é ser comando único no cabeçote. Esse era o motor que equipava o Prelude Si da geração anterior.
Bom para turbinar 😁.
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